Da minha janela

Caro leitor, não me parece usual uma apresentação em livros de poesia. Não é o que tenho visto nos últimos tempos. Sinto, porém, que isso poderá ser útil, nesta pequena coletânea de poemas escritos em diversas fases da minha vida, principalmente para quem não está familiarizado com minha história. Se preferir, tome-a como carta pessoal, já que, ao lhe abrir as portas do meu coração, convido-o a visitar os seus recônditos, e essa visita poderá nos conduzir a uma mútua aproximação, de espírito e de sentimentos.

 

Quanto à forma e ao conteúdo, passo a desenvolver pequenas considerações. Projetando-me a tantas realidades e mundos por vezes díspares e conflitantes, próximos ou distantes, Da minha janela me fez sentir a criança de “Desiderata”, que volta para dar título a essa obra.

Sendo os poemas de diversas fases de minha vida, não tive a preocupação de reunir textos de um só estilo, posto que este é cambiável, como nós mesmos, ainda que conservando nossa essência, ao longo dos anos. O amigo leitor verá que vez por outra apresento sonetos, com rimas do estilo, como em “Imagem de luto”.

 

Em alguns momentos, produzo poemas curtos (“O vazio do amor”, “Ser um bichinho de luz”); em outros, versos livres, sem preocupações de métrica e rima (“Brevidade”, “Prece aos irmãos”); por último, um misto de tudo isso (“Canção ao povo da floresta”) ou nada disso: apenas versos assimétricos, rimados ou não, por meio dos quais extravaso o que penso e em que creio seriamente (“Árvore frondosa”, “O Cristo que existe em mim”, “Conclamação de raças”, “Perguntas em 2007”) – mesmo que de forma rebuscada (“O inpossível”), irônica ou divertida (“O tamanduá e as formigas”, “Macacos”, “Os pássaros do Anchieta”, “Vida que flui”) – e o que sinto (“Tempo em música”, “Quando me for”, “Lápide a lapidar”).

 

Alguns dos lugares em que vivi estão retratados ou são panos de fundo, ainda que não necessariamente nomeados nesta obra: a Fazenda Ipoeira, em Papagaios, MG (“Ao Diego de coração aberto”); Bagdá e o deserto iraquiano (“Prece e esperança no Iraque”); Morro do Chapéu (“Movimentos orbitais”, “Quando eu me for”) e Belo Horizonte (“Os pássaros do Anchieta”). A emoção que senti ao acordar e contemplar a paisagem de neve pela primeira vez, na Tullahoma do final dos anos 60, bem que merecia ser descrita, mas o impacto indescritível ficou escondido no meu peito de jovem que acreditava no sonho americano.

 

À minha mulher, Joana, dediquei “Sonho no deserto” (este também se referindo aos filhos), “À espera por Joana em Bagdá” e “Pela musa de minha vida”. “À minha filha Pollyanna” brotou em meu coração para comemorar os quinze anos daquela que, hoje médica conscienciosa e caridosa, tornou-se linda mulher e poesia. Não esqueci a igualmente bela e meiga, querida filha Ana Cristina, em “Aninha, a maior”. O filho Diego, minha mãe e irmãs aparecem no poema que fiz para o avô (“Ao Diego de coração aberto”). Boa parte da família de minha mãe reconhecerá “Ao primo amigo de minha irmã artista”, e familiares de meu pai entenderão “Imagem de luto” e “Quando o velho for criança”. Os primos se sintam representados pela minha prima amiga e confidente na adolescência em “Para a Mary”.

 

Sei que muita gente importante na minha vida, conhecidos ou não, inclusive você, caro leitor e amiga leitora, pode não estar diretamente citada. Afinal, no número de poemas que didaticamente impus a este livro, não cabe todo mundo, ainda que neles possa caber o mundo inteiro, como nos diria a veia poética de Drummond. Mas sintam-se homenageados em peças como “Brevidade”, “Prece aos irmãos”, “Pelos caminhos da vida”, “Vingança”, “Divagação” e “Brasil”, além de em quaisquer outros poemas com os quais possam se identificar, a seu bel-prazer, ao longo dessa pequena viagem a pensamentos e sentimentos que deseje comigo partilhar, pela generosidade de seu coração e benevolência de seu julgamento, através do inconsciente coletivo e da projeção de mentes e espíritos. Nesse sentido, todo este modesto trabalho é para vocês, se dele puderem tirar alguma coisa de proveito. A perda de alguns poemas me trouxe alguma tristeza, mas sei que isso pode ser imputado a mudanças de endereço, em que o bem é tão bem guardado que costuma não ser encontrado, mesmo depois de esvaziadas as caixas de recordações.

 

Aos puristas da língua, sei que também devo explicações. Que eles me perdoem, além de outras imperfeições, não manter apenas tu ou tão-só você, ao conversar com as musas e pessoas a quem me dirijo, claro que não em única poesia. E, espero não ser tão grave, uso ambas as formas de tratamento num só poema da adolescência, “Você passado, tu presente”, embora deva confessar que o faço de forma deliberada, pela necessidade de ter a menina dos meus sonhos mais próxima, na segunda pessoa do tratamento, e quando ela se torna mais distante, na terceira pessoa. Em “Ao filho que parte para o mundo”, o verbo dobrar é, deliberadamente, transitivo direto. Se não consegui evitar desvios do mais ortodoxo vernáculo, apelo para sua paciência e tolerância. Em não cabendo a tão comum liberdade poética, a justificar as minhas fugas do convencional, que aceitem a inevitável realidade de um ser in-perfeito, posto que o vir a ser é crível e o in-possível.

 

O Autor

 

 

 

 

 

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